Chamam-lhe Ti João da praia limpa e é mesmo isso que faz pelo areal frente ao Tejo

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Chamavam-lhe o pantanal, agora é uma das praias fluviais mais limpas. Tudo pela vontade de um homem. A Câmara concedeu-lhe uma gratificação

 

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Não deve haver no país praia fluvial tão limpa como a da Baía do Seixal, no coração do centro histórico do município. Não há por ali máquinas, nem brigadas higiénicas, nem quaisquer outros artefactos de limpeza. Há um homem de alma grande e intenções sociais que muitos deviam invejar. Chama-se João Pedro Fonseca Ramos, conhecido pelos amigos e por onde passa por Ti João.

Na verdade, a pequena praia da Baía, que beneficiou dos arranjos circundantes patrocinados pela autarquia, a qual instalou uma bateria de chuveiros, iniciativa saudada por toda a gente, está um primor no que respeita a limpeza. Nem um papel, nem uma lata, nem um resto, nem um pedaço de plástico…Limpeza pura.

Ti João viu a luz do dia perto do Palácio da Ajuda, fará em Novembro 83 anos. Aos 9, começou a trabalhar, com o irmão, numa cordoaria. Passa depois para uma fábrica de calçado ligeiro e, já com 18 anos, vamos encontrá-lo noutra unidade industrial do mesmo ramo, a “Estreligrafia”, para os lados de Pedrouços. Laborou ainda numa vidraceira, na rua do Correeiros, até chegar à Covina, onde se reformou aos 65 anos. Então, procurou uma casa no Seixal, perto da do filho, e aqui se radicou.

Dedicou-se, então, a limpar a praia. “Sim, por alta recreação, digamos que por amor à camisola, sem pedir nada em troca!”, diz-nos Ti João. Entretanto, a Câmara do Seixal soube do seu empenho desinteressado e atribui-lhe uma gratificação mensal de 150 euros.

“Dantes, chamavam a esta praia o pantanal: era um mar de ervas, canas, plásticos, latas, garrafas de cerveja, restos de tudo. Era horrível, ninguém vinha para aqui. Agora, vêm apanhar sol e dar um mergulho pessoas de todo o concelho”. E algumas de fora.

A fama e o sentido comunitário deste homem chegou mais longe. Por ele se interessaram João Baião e Fernando Mendes, que o filmaram na praia e o levaram aos respectivos programas televisivos. “Gostei muito de estar com ambos. Ao João Baião tive a oportunidade de dizer, depois de termos conversado: “Obrigado pela sua vivência e que tenha muitos anos de vida!”

A Ti João ninguém impôs horário. No entanto, afirma, “venho para aqui às 6h30 e vou-me embora às 20h00. É muita hora, mas sinto-me bem neste lugar e dá-me prazer ver a praia limpa”.

Uma senhora, que me vira a falar com a personagem desta crónica atirou-me de longe: “Pode haver praia tão limpa como esta, mas mais limpa não encontrará”.
Sei que não vale a pena procurar.

Por José Augusto

 

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