28 Fevereiro 2021, Domingo
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Vendedores no Mercado Levante da Torre da Marinha dizem estar a ir ao fundo

Desgraça e medo do contacto social, os vendedores do mercado sentem-no, e o mesmo dizem acontecer com quem compra

 

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O Mercado do Levante da Torre da Marinha, surgido na década de oitenta do século transacto, vive dias difíceis, certamente como a maioria de todos os congéneres no país. Como se sabe, a clientela destas feiras pertence às classes sociais mais desprotegidas, que são, precisamente, as mais fustigadas pelas crises, seja qual for a sua natureza.

Recentemente, João Torres, secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor, afirmou, a uma revista da especialidade, reconhecer que a crise que vivemos terá “duros impactos económicos, sociais e até culturais”. E no mesmo tom: “Estamos perante uma crise que vai deixar marcas estruturais nos padrões de consumo”. Falou o governante, e parece que falou bem. Todavia, é certo que ao perorar sobre marcas estruturais ou padrões de consumo não tinha em mente, está bom de ver, os micro e pequenos vendedores, nem os consumidores de baixíssimo poder de compra.

Esperança vai para a descoberta da vacina

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A feira da Torre da Marinha realiza-se às terças e quintas-feiras, ali vendem-se adereços e detergentes, relógios e instrumentos informáticos, roupa de bebé e sapatos, enfim, quase tudo para as necessidades mais diárias. Ali, o efeito da crise pandémica tem sido “devastador”. É o que diz José António, vendedor de calçado.

“Anda nisto há 30 anos. O efeito da Covid-19 no nosso negócio é devastador. Muitas pessoas têm medo de vir ao mercado, procuram a todo o custo evitar o contacto social, o que reduziu acentuadamente o número de possíveis fregueses. O meu ramo, a sapataria, sentiu muito essa quebra”.

Depois, lamentou: “Os vendedores que vê aqui estão sozinhos, sem qualquer apoio, é como se estivessem esquecidos. Vá lá que aos que pagam ao mês, porque há os que pagam ao ano, nada lhes foi cobrado nos meses de confinamento”. Para José António, “a única saída desta crise é a descoberta de uma vacina”, e muitos outros no mercado dizem o mesmo.

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“Desgraça”, é o que diz Armindo Pais que vende malinhas de senhora. “Há dias em que não vendo quase nada. E veja que o preço de uma malinha não vai além dos 3,5 ou 5 euros”, desabafou. No fundo, “são mais as despesas do que o apuramento”.

“Ninguém nos ajuda, parece que nos querem ver longe”, comentava este vendedor, prosseguindo: “Não vejo solução para os vendedores ambulantes, nem para os desempregados. Digo isto porque quem compra aqui é a classe pobre e alguma média. E muitos da classe pobre estão desempregados e sem esperança”, ao mesmo tempo questiona sobre “que rendimento se pode tirar da venda de uma ou duas malinhas por dia”. Armindo também está pessimista quanto ao futuro, porque “aumenta o número de contaminados”. Uma saída; “o aparecimento de uma vacina”, concluiu.

Todos se queixam da falta de compradores

A baixa do negócio é também apontada por Mohamed Shabir, vendedor de artigos domésticos ao frisar que a pandemia “tirou-nos muita freguesia”, garante, para logo explicar: “A crise económica afectou a vida das pessoas, que têm agora menos dinheiro e, por isso, não põem os pés na feira”.

Mohamed conta O SETUBALENSE que é vendedor ambulante pelas manhãs, enquanto à tarde trabalha como jardineiro. “Tenho seis pessoas em casa. Portanto, tenho de agarrar-me ao que aparece”.

Da mesma quebra de vendas queixa-se João Arsénio que negoceia roupas de bebé. “Logo que a pandemia nos invadiu, as vendas sofreram uma queda, rarearam as pessoas nos mercados e feiras. Até vendedores têm medo de virem trabalhar”, disse este antigo operário da Lisnave. “As pessoas compram o indispensável. Acresce que eu vendo artigo nacional, do bom, que depois de lavado fica como novo e, hoje em dia, as pessoas passam de umas para as outras as roupas de bebé”. “Além disso, há cada vez mais gente a comprar em lojas de segunda mão”.

João Arsénio teve de se “meter neste negócio” quando saiu da empresa de reparação naval, agora, pensa no futuro relativamente próximo: “Quando fizer 66 anos, daqui a três, vou reformar-me”. Mas sabe, desde já, que a reforma não lhe dará para grandes floreteados.

Por José Augusto

 

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