30 Novembro 2020, Segunda-feira
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Setenta anos de ofício: “Cheguei a cortar o cabelo a mais de 300 clientes por mês”

Aos 82 anos, o Barbeiro continua a passar o dia na loja alugada há décadas, numa rua daquela freguesia do concelho da Moita

 

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António Beliz, com 82 anos de vida, setenta dos quais dedicados à arte de cortar o cabelo a homens, continua a exercer o seu ofício na Baixa da Banheira com o mesmo gosto de antigamente, altura em que iniciou a sua profissão numa Barbearia da sua terra natal. Mesmo depois de se reformar, o cabeleireiro nascido em Castelo de Vide recorda os tempos em que, apenas com 12, começou a aprender a trabalhar numa área onde, na altura, as oficinas estavam cheias de aprendizes e de gente com o sonho de ir mais longe.

Foi por sugestão de seu pai que se dedicou a esta arte. Passados os primeiros tempos, conseguiu “fazer alguns trabalhos com maior perfeição”, mas um problema de saúde interrompeu o seu percurso, o que acabaria por o afastar de uma tarefa que sempre lhe agradou durante alguns meses.

Ao ficar livre de prestar o serviço militar, o Sr. António – como é tratado nas redondezas –, pegou nos seus primeiros instrumentos de trabalho e rumou a Lisboa, em 1958, onde trabalhou no Beco do Cascalho, na zona do Martim Moniz, e já ganhava 180 escudos por semana. Mais tarde, foi na Barbearia “Tentador”, situada junto ao Largo de S. Paulo (que já possuía manicura, serviço de graxa, para além dos cortes de cabelo), que viria a “receber boas instruções”, onde conta “ter aprendido qualquer coisa neste ramo”. No início da década de 60, regressa ao Alentejo e quatro anos depois acaba por começar a trabalhar por conta própria.

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“Como tinha um primo em Luanda e depois de uma troca de conversas em família, decidi alugar um espaço no estrangeiro – a Barbearia Elite –, tendo começado uma nova aventura” por terras de África. Nessa altura, adianta, “cheguei a cortar o cabelo a mais de 300 clientes por mês, o que era bastante invulgar”, relatou a O SETUBALENSE.

Ao fim de cinco anos deixa Angola e regressa a Portugal para se aventurar numa nova etapa da sua vida. “Lembro-me de nesse período já ganhar quatro contos ao mês”, recorda. Um dia, acrescentou, recebeu “um contacto de um familiar que vivia na Rua dos Açores, na Baixa da Banheira, que me disse que existia uma pessoa que queria emigrar para França, e perguntou-me se estaria interessado no trespasse da sua loja”.

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Fechado o negócio por 10 contos, António Beliz lembra que “quando vim para aqui reparei que não faltavam cafés e tabernas, todos cheios de gente e perguntava-me se esta gente não trabalhava”. Um amigo ajudou a esclarecê-lo sobre esta questão. “Aqui a maior parte das pessoas trabalha por turnos, tendo desde logo percebido que teria clientes durante todo o dia”, disse. Desde então e há mais de meio século, continua a abrir a sua porta diariamente.

“Nunca tive dúvidas de que este seria o meu ofício”

Afirma que nunca quis fazer sociedades ou ter empregados, mas ao longo da sua carreira, reconhece que sempre preferiu cortar cabelos a homens. “Desde o início, nunca tive dúvidas de que este seria o meu ofício, pelo que desde cedo comecei por tirar a minha carteira profissional”, frisou.

António Beliz não dispensa a companhia diária do pente e da tesoura, das máquinas manuais que guarda religiosamente e das navalhas para fazer a barba, para além do pincel, da taça e até dos antigos recipientes onde se guardava a laca. Em exposição estão ainda as seis tesouras que foi usando ao longo de décadas.

Apesar de reformado, o cabeleireiro afirma que “vou continuando a fazer o que sempre fiz, mesmo com um menor número de clientes, até porque não sou capaz de passar o dia inteiro em casa, para mim isso seria um sacrifício, são muitos anos de convívio e acabamos por ganhar amigos”. Para além disso, é “aqui que gosto de ler o meu jornal ao início do dia”.

Antigamente, lembra, a Baixa da Banheira “era uma família, mas nos dias de hoje ninguém se respeita”, pelo que “qualquer dia, a diversidade criada pelas gentes vindas do Alentejo, do Algarve ou do norte do país tende a desaparecer”, lamenta. Em relação à nova geração de cabeleireiros, considera que se vivem tempos complicados. “No meu caso, tenho a minha reforma e vou vivendo, mas alguns colegas de profissão estão a atravessar momentos muito difíceis com esta pandemia”.

Cabeleireiro desempenhou várias funções

Na comunidade banheirense integrou uma Comissão de Moradores, a Associação de Geminação daquela vila com Ville Plaisir e Pinhel, tendo desempenhado a função de director do Centro de Reformados e Idosos da Baixa da Banheira (CRIBB), entre o período de 1981 e 83.

Inicialmente foi primeiro secretário da Mesa da Assembleia Geral, Tesoureiro e presidente do Conselho Fiscal. Ligado ao centro há 40 anos, o Sr. António é ainda o segundo secretário da Mesa da Assembleia, tendo ajudado a instalar o monumento existente no exterior da instituição.

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