18 Janeiro 2021, Segunda-feira
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“O fado preenche-me completamente porque tem uma componente emotiva forte”

Com uma carreira de trinta anos, a fadista diz sentir-se realizada com tudo o que alcançou, mas revela que o seu percurso “tem sido duro”

 

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Dividida entre a música e a sua formação em Design, Piedade Fernandes comemorou este ano três décadas de carreira em nome do fado. Apesar de não ter gostado imediatamente do estilo musical português, revela que foi “uma paixão de criança” que fez com que o seu coração despertasse para o amor e para a saudade. Perto de completar o seu 57.º aniversário, diz sentir-se realizada com o seu percurso, que começou aos 26 anos no Teatro Animação de Setúbal, depois de ter vindo do Barreiro para a cidade sadina para dar aulas. Sempre ligada à sua maior referência, Amália Rodrigues, espera no futuro vir a gravar poesias escritas por si.

Há trinta anos que é fadista. Como surgiu o fado na sua vida?
Quando era miúda a ideia que tinha do fado é que era uma seca. Lembro-me de entrar na sala dos meus avós, onde havia uma telefonia, e de estar a passar um programa com fados e eu pensar: “lá tenho eu de ouvir isto”. No entanto, tinha eu 13 anos quando chegou ao Barreiro, cidade onde morávamos, um ciclo de cinema português, ao qual fui com os meus pais ver o filme ‘Capas Negras’, com a Amália Rodrigues. Também nessa altura estava apaixonada. Uma paixão de criança, mas o meu coração despertou para o amor e para a saudade. Foi aí que compreendi o que era o fado e que comecei a gostar.

E quando começou a cantar fado?
Comecei a cantar fado no momento em que vim para Setúbal, tinha 26 anos, para vir dar aulas, sendo eu formada em Design. Ao mesmo tempo comecei a trabalhar num restaurante que ficava perto do Teatro de Bolso, que era frequentado pela equipa do Teatro Animação de Setúbal. Certo dia surgiu a oportunidade de eles trabalharem também no Fórum Municipal Luísa Todi com uma revista portuguesa. Como já me conheciam e gostavam de me ouvir cantar, convidaram-me para fazer parte do elenco. Comecei assim a fazer teatro e a cantar também música ligeira e marchas e foi quando gravei um disco.

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Depois surgiu a oportunidade de participar no Festival da Canção. Fui ainda madrinha das Marchas do Bairro Santos Nicolau durante nove anos, tendo começado a trabalhar na Companhia de Teatro Itinerante. Cantei também em Lisboa durante muitos anos. Acabei por abrandar porque, paralelamente a tudo isto, nunca deixei de dar aulas e a idade também avança. Estou quase a completar 57 anos. O meu percurso tem sido duro. É mesmo correr por gosto.

O que trouxe o teatro à sua vida?
Os ensinamento que o teatro me deu fizeram com que olhasse para a postura de intérprete como uma contadora de histórias sobre forma cantada. Se eu gostar da música e da letra eu canto. O poema tem é de me tocar, senão não canto. Se gosto do poema e se a música me fizer arrepiar canto, e isso no fado acontece com frequência. O fado é uma forma de cantar que é mais agilizada, carecendo apenas de guitarra e de viola, sendo mais fácil de compor um espectáculo.

Depois é também muito emocional. Cada fado é uma história. Se cantar música ligeira, só com algumas músicas é que chego ao fim cansada, isto é, porque pus lá tudo. No fado é ao contrário. Não há fado nenhum que não seja intenso. O fado é uma coisa que me preenche completamente, porque tem uma componente emotiva forte. No fado até os silêncios têm significado e peso. Há toda uma ambiência no trinar da guitarra, nas respirações, na enfatização que pomos no ato de cantar, na voz e na interpretação. Neste sentido o teatro ajudou-me muito.

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Mas antes dos 26 anos já cantava?
Sempre cantei, só que os meus pais sempre me disseram que primeiro tinha de tirar um curso. A minha mãe cantava muito bem e o meu pai escrevia poesia e sempre foi uma pessoa amante de música. Acabei por me formar em Design. Quando estávamos em família diziam “canta qualquer coisa”, mas eu era muito envergonhada e só cantava em casa. Só consegui graças à força que os colegas do teatro me foram dando. Eles fizeram com que ganhasse coragem e incentivaram-me muito.

Essa adolescente imaginou que o seu percurso seria assim?
Não. Na adolescência imaginava que a minha vida seria sempre ligada às artes plásticas. Aliás, as minhas notas em tudo o que fosse trabalho oficinas eram óptimas. Também como sou filha única e tardia, entretinha-me a pintar e a desenhar sozinha em casa.

Mas sente-se realizada?
Sinto. Já tive alturas em que pensei “se morresse hoje sentia-me feliz com o que alcancei”. E é verdade. Ganhei concursos e festivais, viajei bastante, conheci pessoas incríveis e tive a sorte de trabalhar com autores e compositores reconhecidíssimos. Partilhei experiências. Tenho dois filhos e duas netas lindíssimas. Ganhei um diploma de embaixadora da cidade e a Medalha da Cidade. Agora só quero trabalho, que é a continuidade daquilo que eu gosto de fazer.

Qual a sua maior referência?
É a Amália Rodrigues porque não cantava só fado. Cantava tudo e era uma mulher de uma generosidade, simplicidade e inteligência fora do comum. Não tinha pudor ou pretensiosismos, mas uma cultura musical que era genuína nela.

Como concilia hoje as aulas com a música?
Hoje é mais fácil pois não há quase trabalho nas cantigas. Agora é só praticamente as aulas. Já tive mais sobrecarregada de trabalho em relação à música do que estou agora, mas sempre tentei encarar as coisas de forma positiva. Já este ano, com a Covid-19, tem sido um ano péssimo, mas há aspectos que mudaram na nossa vida. Conseguimos parar e passámos a ter mais tempo em família. Consegui viajar. Passei momentos sem pressas e fiquei a conhecer Portugal sem ser de fugida, como acontecia quando estava no teatro.

Qual o poema que mais gosto lhe dá interpretar?
Há músicas com as quais me identifico mais, como a ‘Com que Voz’, feita para a Amália, o ‘Renascer de um Trovador’, música que levei ao Festival da Canção, e ainda a que passou na séria a Casa de Papel, o ‘Fado Boémio e Vadio’. Outra que gosto muito é o ‘Quem me Dera’, da Mariza.

E qual o local onde mais gostou de cantar?
Gosto de cantar no Fórum Municipal Luísa Todi, talvez porque foi o meu berço. Lá sinto-me em casa. Tirando o fórum, entre 2000 e 2010, fiz muitos espectáculos em Espanha, mas para mim qualquer palco é bom, desde que estejam lá pessoas para me escutar.

Como é ver o seu trabalho reconhecido fora do País?
É bom ter pessoas do outro lado do mundo a dar-me os parabéns. É também um privilégio conhecer outras pessoas e podermos fazer esta ponte cultural. É agradável haver esta multiculturalidade, mas eu digo sempre que é um trabalho de equipa. Eu sou apenas o transporte do poema.

Sente diferença ao cantar para poucas ou muitas pessoas?
A responsabilidade é a mesma. O problema não é a quantidade de pessoas. Quero é que a voz não me falte, que não me esqueça da letra e que corra tudo direito entre mim e os músicos.

Para o futuro, qual é o plano?
Quero voltar a gravar, incluindo algumas coisas que escrevi. Gostava de voltar a trabalhar com o Nuno Nazaré Fernandes e de fazer qualquer coisa com a Alexandrina Pereira porque gosto muito da sua poesia. Gostava de trabalhar com essas pessoas e com mais algumas com as quais me identifico.

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