4 Março 2021, Quinta-feira
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“Temos com o Montijo um casamento que desejamos para a vida”

A companhia Mascarenhas-Martins acaba de celebrar seis anos de existência e o co-director, Levi Martins, faz uma ‘jura de amor’ à cidade

 

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Levi Martins, 37 anos, deixa implícito que a adopção da cidade montijense como residência da companhia foi a mais acertada. Ao mesmo tempo, o co-director explica os mais recentes projectos apresentados durante as comemorações de aniversário – um livro e um trabalho discográfico, a que se devia juntar a estreia de uma peça de teatro prevista para hoje, mas que foi, para já, cancelada face ao novo período de confinamento.

A Mascarenhas-Martins cumpriu seis anos de vida no passado dia 6. De todos os obstáculos que a companhia teve de ultrapassar, deixando de lado os provocados pela pandemia, qual foi o mais difícil de superar?

O que sentimos é que o projecto que temos em mãos é sempre o mais difícil de superar. Surgem sempre constrangimentos, imprevistos… Se olharmos para trás, apercebemo-nos de que houve sempre obstáculos e que foi impossível antevê-los porque como os trabalhos são todos diferentes, os desafios que colocam implicam sempre soluções novas – ao contrário de outras profissões, não é possível recorrermos à experiência, já que há muito pouco naquilo que fazemos que se possa transformar numa metodologia que garanta eficiência e eficácia.

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Nos primeiros tempos, se calhar abordávamos tudo de forma mais impulsiva. Agora já temos uma certa maturidade, o que nos permite ser mais racionais mesmo sob pressão. Temo-nos aproximado cada vez mais da ideia de que na verdade aquilo que fazemos não pode ser pensado como se fosse um conjunto de problemas que temos para resolver, mas sim uma condição que vamos gerindo de forma permanente, em que nunca nada fica verdadeiramente concluído.

E o momento que, ao longo desta caminhada, vos deu mais prazer saborear?

Talvez o início, o dia a que demos o nome de Abertura, na Casa Mora, em que surpreendentemente as pessoas não paravam de chegar para assistir a uma conversa com o Luis Miguel Cintra, o João Lourenço, a Vera San Payo de Lemos e o João Brites sobre o início das suas companhias. Foi um dia em que se tornou claro que valia a pena lutar por ideais, mesmo sabendo que depois o caminho seria sempre duro. Não é que não tenha havido outros momentos de grande satisfação, mas depois de as coisas começarem a andar e o ritmo e a exigência terem aumentado a cada passo tornou-se mais difícil ter tempo para saborear as conquistas. Sempre que um projecto termina, já outros três ou quatro tiveram início.

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Não se ficam apenas pelo teatro. Vão mais longe no panorama cultural. No dia 9, no âmbito das celebrações de aniversário, lançaram um livro e apresentaram um trabalho musical. Em que consiste e qual o objectivo desse livro?

O livro Criar e Produzir II dá continuidade a uma parceria nossa com o Centro de Estudos de Teatro (FLUL) que começou em 2017, ano em que co-organizámos um primeiro encontro sobre o mesmo tema no Cinema Teatro Joaquim d’Almeida. Este projecto partiu de uma ideia da professora e investigadora Maria João Brilhante, que considerou importante reunir os pontos de vista de diferentes profissionais de teatro numa reflexão regular acerca das condições que consideram necessárias para se criar. O primeiro livro, que foi editado em 2018, baseou-se no primeiro encontro presencial. Esta nova publicação partiu de um conjunto de conversas online gravadas em 2020, uma vez que não foi possível realizar-se um novo encontro que estava agendado para Junho em Setúbal. Os participantes foram Guilherme Gomes, João de Brito, Jorge Silva Melo, Maria de Vasconcelos, Miguel Jesus, Patrícia Paixão e Ricardo Neves-Neves. O livro está disponível para download gratuito (www.mascarenhasmartins.pt/edicoes).

E o álbum é uma estreia da companhia na produção musical e só com originais. Quantas faixas tem e como o definem?

O álbum terá dez faixas de originais com letras do Miguel Branco, música de André Reis e minha [Levi Martins]. De uma perspectiva musical é bastante ecléctico, tanto pisca o olho à música de intervenção dos anos 60 e 70 como, de repente, pode lembrar o Tommy de The Who ou talvez fazer pensar no que poderia acontecer se Elliott Smith tivesse escrito uma canção para Simon & Garfunkel. Tudo com base na ideia de colocar a língua portuguesa no centro das canções. Talvez não seja por acaso que este trabalho surge depois do concerto que fizemos no nosso aniversário no início de 2020, em que tocámos música de artistas e grupos como Samuel Úria, Capitão Fausto, B Fachada, Linda Martini, entre outros.

Porquê a atribuição do nome “Terrível Estado” a este trabalho? Há aqui uma crítica implícita ao Estado que nos governa ou é mais um alerta ao estado a que chegámos enquanto sociedade?

A ideia é mesmo que o título contenha essa ambiguidade, permitindo não só essas leituras mas ainda outras. «Agora ser assim / Agora ser assado / Que terrível Estado / Que terrível Estado», o refrão, se ignorarmos a maiúscula em Estado, se calhar até pode estar mais relacionado com questões mais interiores, eventualmente filosóficas. Seja como for, parece-nos que há motivos suficientes para se ser crítico em relação ao estado a que chegámos. É provável que em todas as épocas haja motivos para se ser crítico e tentar influenciar o rumo das coisas. A forma como o dia-a-dia está organizado não favorece a mudança, é preciso muita determinação para continuar a lutar por ideais.

Para esta sexta-feira estava agendada a estreia de uma nova criação, intitulada “Nó”. O que retrata esta peça? O nó na garganta face ao asfixiamento provocado pela pandemia?

Ensaio da peça “Nó” cuja estreia foi adiada para dia 26

O nó a que o título se refere relaciona-se com uma sensação que já tínhamos antes da pandemia, não apenas como profissionais das artes. Também enquanto cidadãos que tentam estar atentos e se apercebem de um mal-estar que detectam um pouco por todo o lado. Se andarmos de transportes públicos à hora de ponta no regresso de Lisboa para esta margem, por exemplo, o que é que vemos? Cansaço, solidão, frustração. As pessoas lá se vão agarrando a quem têm à volta, amigos, colegas, mas as conversas são quase sempre sobre como é difícil viver. Depois o telemóvel acaba sempre por aparecer, como último reduto, refúgio para quando a conversa ou a solidão se tornam insuportáveis, forma eficaz de fazer com que o tempo passe mais depressa.

Este espectáculo, na sequência de outros trabalhos que temos produzido, é sobre desilusão. Temos assumido que o nosso trabalho se relaciona quase sempre com a ideia de se tentar retirar camadas de ilusão à nossa relação com o real, uma forma de pensar a desilusão tirando-lhe a habitual acepção pejorativa: queremos tentar olhar para as coisas como elas são, mesmo que seja um processo doloroso.

O “Nó” relaciona-se também com a coragem que é necessária para se tomar decisões, referindo-se sobretudo com a sensação de aperto que vem de dentro quando as opções disponíveis parecem todas muito mais uma ameaça do que uma promessa. Quem consegue hoje sorrir ao pensar no que podem ser os próximos tempos?

Como está a relação da companhia com o Montijo? Saiu reforçada com o recente protocolo com a Câmara Municipal?

Montijo é a cidade onde decidimos desenvolver o nosso trabalho, o que significa que temos com ela uma relação muito séria, como se fosse um casamento. E, como se sabe, os casamentos têm muitas implicações, não têm a leveza de um namoro de Verão. É uma relação para a vida, pelo menos é isso que desejamos.

A relação entre estruturas como a nossa e as autarquias é quase sempre difícil, uma vez que queremos ir muito mais longe, muito mais depressa do que os decisores políticos sentem que podem ir. No entanto, em muitos aspectos consideramos que a relação com a Câmara Municipal do Montijo, e já agora com a Junta da União das Freguesias de Montijo e Afonsoeiro, tem sido francamente positiva, tendo sido a base segura para que nestes primeiros anos conseguíssemos fazer tantas coisas e alavancar muitos outros apoios. A experiência que temos tido é que quanto maior for o investimento autárquico, mais apoios conseguimos obter de outras fontes, mais pessoas conseguimos envolver nos trabalhos, mais público conseguimos atingir.

Quanto à renovação do protocolo com a Câmara Municipal para a temporada 2020-2021, esta foi pouco mais longe do que na temporada anterior do ponto de vista financeiro, mas a esse apoio que tem sido regular acrescentou-se uma novidade de grande importância: foi aprovado um contrato de comodato de cedência de um espaço à Companhia que permitirá não só resolver um problema que se tem tornado muito sério, que é o da necessidade de salvaguardar o material cenográfico, adereços e guarda-roupa, entre outros materiais que temos vindo a acumular desde o início, como também desenvolver alguns ensaios e trabalho de preparação de espectáculos e outras produções.

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