7 Março 2021, Domingo
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“Trabalho para comer enquanto muitos fazem-no em razão do seu ego”

Concretizou o seu sonho de criança depois de uma vida movimentada. Pinta sobre papel, tela e cortiça

Hugo Castanheira trabalha no n.º 1 do Largo da Igreja, no núcleo antigo do Seixal onde já estiveram sediados os Paços do Concelho. O relógio do templo pontua de hora a hora o labor do pintor para quem “uma obra tem que lhe dizer qualquer coisa, contar- -lhe uma história”.

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Os pais viviam em Paio Pires e mudaram-se para o Seixal quando ele tinha um mês de vida. “Nessa altura, aqui, a vida era mais barata, incluindo as rendas de casa. Hoje, a situação inverteu-se”, explicou o artista, que diz por brincadeira que “se não tivesse nascido em 1974, não teria havido a Revolução de Abril”.

“Paio Pires era muito procurada por operários de todos os pontos do país, pois a Siderurgia laborava em toda a capacidade”. A sua infância e adolescência não diferirá das dos seus coetâneos: frequentou a Escola José Afonso, também conhecida pela escola das Cavaquinhas, praticou hóquei em patins, na posição de guarda-redes e, depois, basquetebol, tendo passado pelas classes de formação do Benfica.

Lição cruel mas proveitosa

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Aos 18 anos de idade, decidiu “independentizar-se” e abalou para Inglaterra, “empurrado por mais umas das crises” que afectou de sobremaneira a juventude. “Foi a minha experiência de vida mais cruel, mas também a mais positiva”, salienta. Foi na terra de sua majestade que passou o primeiro Natal longe dos pais.

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“Comecei por lavar pratos num restaurante chinês, depois trabalhei em catering num colégio militar, até que regressei a Portugal numa viagem de mala às costas, quer dizer, à boleia”, assim descreve um período da sua existência.

Sol de pouca dura. Tempos depois regressa ao Reino Unido e, digamos assim, a coisa correu muito melhor. “Como conheço várias línguas e vi reconhecida a eficiência do meu trabalho, alcancei funções de responsabilidade numa empresa multinacional, que, em busca de mão- -de-obra barata, abriu uma filial no nosso país. E cá estou eu outra vez em Portugal”.

Outros factos enaipam na sua movimentada existência: deixa a multinacional por razões pessoais, abre um restaurante e, em 1997, dedica-se exclusivamente à pintura. Não frequentou cursos, não passou por nenhuma escola de belas artes, deitou apenas ao seu imenso talento. É um genuíno autodidacta. “Desde criança que quis ser pintor”, confessa, e talvez aqui esteja toda a explicação do êxito que vai cimentando dia a dia.

“Sabe? Acho que há uma certa diferença entre mim e a maior parte dos outros pintores: é que eu trabalho para comer e para que os meus possam comer, enquanto muitos fazem-no em razão do seu ego!”, diz.

Associação Cultural L1B

O professor integra a Associação Cultural L1B, cujos alicerces foram lançados pela professora Gabriela Benavente, há cerca de uma década. “A L1B trabalha para a dignificação do nome do Seixal e para a preservação das artes e memória das suas gentes”, nas palavras de Hugo Castanheira. “Por conseguinte, promove encontros para avivar a tradição oral da região, ou sessões literárias que tenham a ver, de uma maneira ou outra, com o Seixal, seu folclore e história”.

Certo dia, o pintor pediu à Associação um “espaço para se consagrar a um trabalho mais direcionado para o público em geral, de modo a aprofundar a interacção entre a L1B e a população. A associação acedeu ao meu pedido e o espaço é este, onde nos encontramos”. E continua: “Como lhe disse, comecei a pintar sozinho, corria o ano de 1997, para tornar realidade o meu sonho de criança. Felizmente, passado pouco tempo, comecei a vender quadros, mas orientando o meu trabalho para a concretização de uma obra que me transmita um sentimento, que me conte uma história”.

Foi o Seixal que acolheu a primeira exposição do artista. Verificou, então, que a grande maioria das pessoas não comprava quadros, mas adquiria pequenos objectos, como cascas de ostra pintadas. Hugo pinta sobre papel, tela ou cortiça, mas também em outros materiais. “Continuo a fazer peças várias e a pintar em cortiça. A associação tinha pedaços de cortiça por todo o lado e eu pensei dar-lhes utilidade. Houve quem fizesse outras coisas, como brincos, por exemplo”, recorda o artista.

“Certa ocasião, alguém da Câmara do Seixal viu o meu trabalho, gostou e fez-me uma encomenda de algumas peças destinadas a ofertas protocolares. Acho que haverá já trabalhos meus na China, no Japão ou em Timor”, revela Hugo Castanheira, que desenvolveu uma nova tecnologia: o fingimento de azulejo em cortiça.

Hugo Castanheira tem um filho do seu “casamento inglês”, o mais velho dos quais tem 23 anos, outro de uma segunda relação, e uma filha da sua actual companheira, com apenas três anos. Algum deles trilhará a senda artística do pai? O tempo o dirá.

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